A Doença de Fabry é uma condição genética rara, ligada ao cromossomo X, causada pela deficiência da enzima alfa-galactosidase A. Essa alteração leva ao acúmulo progressivo de glicoesfingolipídeos em diferentes tecidos do organismo, incluindo rins, coração, sistema nervoso e pele.
Na nefrologia, essa doença merece atenção porque o acometimento renal pode começar de forma silenciosa. Em muitos pacientes, as primeiras manifestações são albuminúria ou proteinúria persistentes, enquanto a taxa de filtração glomerular ainda permanece preservada. Como essas alterações podem ser interpretadas inicialmente como inespecíficas, o diagnóstico costuma ser retardado.
O Consenso Brasileiro para Doença de Fabry, elaborado pelo Comitê de Doenças Raras da Sociedade Brasileira de Nefrologia (COMDORA-SBN), destaca que o reconhecimento precoce das manifestações renais e sistêmicas pode contribuir para uma investigação mais direcionada, especialmente em pacientes com alterações renais sem causa aparente ou associadas a outros sinais clínicos sugestivos.
Como a Doença de Fabry afeta os rins
Nos rins, o acúmulo de glicoesfingolipídeos pode ocorrer em diferentes estruturas, como podócitos, células endoteliais, células tubulares e células musculares lisas vasculares.
Com o passar do tempo, esse depósito pode comprometer a barreira de filtração glomerular e favorecer o aparecimento de:
- albuminúria;
- proteinúria;
- redução progressiva da taxa de filtração glomerular;
- hipertensão arterial em parte dos pacientes;
- evolução para doença renal crônica em alguns casos.
A presença de albuminúria ou proteinúria persistente costuma representar um dos principais marcadores de acometimento renal. Entretanto, esses achados não são exclusivos da Doença de Fabry e sempre precisam ser interpretados em conjunto com o histórico clínico, os exames complementares e a presença de manifestações em outros órgãos.
Uma doença sistêmica
A Doença de Fabry não acomete apenas os rins.
Entre as manifestações que podem estar presentes estão:
- dor neuropática nas mãos e nos pés;
- diminuição ou ausência de sudorese;
- sintomas gastrointestinais;
- angioqueratomas (pequenas lesões cutâneas características);
- alterações cardíacas;
- acidente vascular cerebral em idade mais jovem;
- alterações auditivas.
Nem todos os pacientes apresentam todas essas manifestações, e a intensidade dos sintomas pode variar bastante entre indivíduos da mesma família.
Essa diversidade clínica explica por que muitos pacientes passam anos até que a relação entre os diferentes sintomas seja reconhecida.
Por que o diagnóstico pode atrasar
Por ser uma doença rara e apresentar manifestações muito variadas, a Doença de Fabry frequentemente permanece sem diagnóstico durante vários anos.
Na prática clínica, um dos desafios é que alterações como proteinúria, albuminúria ou discreta redução da função renal também podem ocorrer em doenças muito mais comuns, como hipertensão arterial, diabetes ou outras nefropatias.
Por isso, o nefrologista costuma ampliar a investigação quando observa alterações renais persistentes sem uma causa evidente, principalmente quando existem manifestações cardíacas, neurológicas, cutâneas, histórico familiar compatível ou acometimento de diferentes órgãos na mesma pessoa.
Mais do que identificar uma alteração isolada, o diagnóstico depende da integração entre os achados clínicos, laboratoriais, genéticos e familiares.
O papel da biópsia renal
A biópsia renal pode ter papel importante na investigação da Doença de Fabry, principalmente quando ainda existe dúvida diagnóstica ou quando há suspeita de outra doença renal associada.
Na análise histológica, podem ser identificados depósitos característicos de glicoesfingolipídeos em diferentes tipos celulares do rim. Esses achados ajudam a compreender tanto a natureza da lesão quanto seu grau de cronicidade.
Entretanto, a indicação da biópsia deve ser individualizada. Em alguns pacientes, o diagnóstico pode ser estabelecido por meio da combinação entre avaliação clínica, exames enzimáticos, testes genéticos e histórico familiar, tornando a biópsia desnecessária.
Avaliação familiar e genética
Como a Doença de Fabry é hereditária, a investigação genética tem papel importante tanto na confirmação diagnóstica quanto na identificação de familiares que possam apresentar a mesma alteração genética.
Além de auxiliar na definição do diagnóstico, essa avaliação permite reconhecer familiares que ainda não desenvolveram manifestações clínicas importantes, mas que podem se beneficiar de acompanhamento especializado.
O aconselhamento genético deve ser realizado de forma individualizada, considerando aspectos clínicos, familiares, emocionais e éticos relacionados ao diagnóstico e ao rastreamento familiar.
Conclusão
A Doença de Fabry é uma condição genética rara que pode acometer os rins de forma progressiva e silenciosa. Alterações como albuminúria, proteinúria ou redução da função renal, principalmente quando associadas a manifestações neurológicas, cardíacas, cutâneas ou a um histórico familiar sugestivo, podem indicar a necessidade de uma investigação mais aprofundada.
Como esses achados não são exclusivos da doença, a avaliação deve considerar o contexto clínico de cada paciente, a evolução dos exames e, quando indicado, exames específicos para confirmação diagnóstica. O reconhecimento precoce da Doença de Fabry permite compreender melhor a origem do acometimento renal e orientar adequadamente o acompanhamento do paciente e de seus familiares.
FAQ – Perguntas Frequentes
Doença de Fabry é uma doença renal?
Não. Trata-se de uma doença genética sistêmica que pode acometer diversos órgãos, incluindo rins, coração, sistema nervoso, pele e outros tecidos.
Proteinúria pode ser sinal de Doença de Fabry?
Pode. A proteinúria é uma das possíveis manifestações renais da doença, principalmente quando persistente e associada a outros achados clínicos. No entanto, ela também pode ocorrer em diversas outras doenças renais, motivo pelo qual deve ser interpretada dentro do contexto clínico.
Toda pessoa com Doença de Fabry desenvolve insuficiência renal?
Não. A evolução é bastante variável entre os pacientes. Fatores como o tipo de variante genética, o momento do diagnóstico e o grau de acometimento dos órgãos influenciam a evolução clínica.
A Doença de Fabry é hereditária?
Sim. É uma doença genética ligada ao cromossomo X, podendo afetar diferentes membros da mesma família. Por esse motivo, a avaliação genética e o aconselhamento familiar costumam fazer parte da investigação.
A biópsia renal pode ajudar no diagnóstico?
Em alguns casos, sim. A biópsia pode demonstrar alterações compatíveis com o acometimento renal da doença, especialmente quando ainda há dúvida diagnóstica ou suspeita de outra nefropatia associada. Entretanto, sua indicação depende da avaliação individual de cada paciente.
Referências
Comitê de Doenças Raras da Sociedade Brasileira de Nefrologia (COMDORA-SBN).
Brazilian consensus recommendations for the diagnosis, screening, and treatment of individuals with Fabry disease.
Jornal Brasileiro de Nefrologia. 2021.
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9269181
Waldek S, Feriozzi S.
Fabry nephropathy: a review – how can we optimize the management of Fabry nephropathy?
BMC Nephrology. 2014.
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4029839
Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN).
Conselho Federal de Medicina (CFM).
Resolução CFM nº 2.336/2023 – Publicidade e propaganda médicas.
https://sistemas.cfm.org.br/normas/visualizar/resolucoes/BR/2023/2336
https://sistemas.cfm.org.br/normas/visualizar/resolucoes/BR/2023/2336
Dr. Fabiano Bichuette Custodio
CRM-MG 46712 | RQE 31363


