Doenças tubulointersticiais: quando a lesão renal não começa no glomérulo

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Doenças tubulointersticiais: quando a lesão renal não começa no glomérulo

Grande parte das doenças renais é lembrada por alterações nos glomérulos, como proteinúria e hematúria. No entanto, os rins também podem ser acometidos por doenças que atingem principalmente os túbulos renais e o interstício, região que envolve e sustenta diferentes estruturas renais.

As doenças tubulointersticiais formam um grupo amplo de condições capazes de provocar injúria renal aguda, doença renal crônica, distúrbios eletrolíticos, alterações do equilíbrio ácido-base e mudanças na capacidade de concentração da urina.

Medicamentos, infecções, doenças autoimunes, alterações metabólicas, toxinas, obstruções e condições hereditárias estão entre as possíveis causas. Por isso, identificar o padrão de lesão e reconstruir o histórico clínico são partes importantes da investigação.

O que são túbulos renais

Os túbulos renais são estruturas responsáveis por modificar o líquido formado após a filtração glomerular, reabsorvendo substâncias necessárias e contribuindo para a eliminação de outras.

Eles participam de funções como:

• reabsorção de água
• controle de sódio, potássio e bicarbonato
• equilíbrio ácido-base
• concentração da urina
• eliminação de determinadas substâncias

Por isso, alterações tubulares podem se manifestar de maneiras diferentes das doenças predominantemente glomerulares. Dependendo do segmento tubular comprometido, podem surgir alterações eletrolíticas, distúrbios ácido-base ou dificuldade para concentrar adequadamente a urina.

O que é o interstício renal

O interstício é o tecido localizado entre diferentes estruturas renais e está intimamente relacionado aos túbulos e aos vasos.

Inflamação persistente ou fibrose nessa região pode comprometer progressivamente a função renal.

Nas doenças tubulointersticiais, a lesão pode ser predominantemente inflamatória, tóxica, imunológica, infecciosa, metabólica, hereditária ou relacionada a alterações do trato urinário.

Principais causas

Entre as causas possíveis de doença tubulointersticial estão:

• medicamentos
• infecções
• doenças autoimunes
• obstrução urinária
• exposição a determinadas toxinas
• distúrbios metabólicos
• doenças hereditárias
• rejeição em transplante renal

Alguns medicamentos, incluindo determinados anti-inflamatórios e inibidores da bomba de prótons, estão associados à nefrite intersticial em determinados pacientes. O uso de uma medicação, entretanto, não permite atribuir automaticamente a ela uma alteração da função renal.

A investigação depende da cronologia das alterações, dos medicamentos utilizados, das exposições, das doenças associadas e do padrão encontrado nos exames.

Nefrite intersticial aguda

A nefrite intersticial aguda é uma forma inflamatória de lesão tubulointersticial.

Ela pode estar associada a medicamentos, infecções ou doenças sistêmicas. O quadro pode incluir aumento da creatinina e alterações no exame de urina e, em alguns pacientes, manifestações sistêmicas.

Entretanto, apresentações clássicas nem sempre estão presentes. Isso significa que a ausência de sintomas específicos não exclui a possibilidade de nefrite intersticial. A relação temporal com medicamentos e outras exposições, a evolução da função renal e os demais exames ajudam a construir a suspeita clínica.

Doença tubulointersticial crônica

Quando a lesão se mantém ao longo do tempo, podem ocorrer fibrose intersticial e atrofia tubular.

Esses achados têm importância porque estão relacionados à perda de tecido renal funcional e podem acompanhar diferentes formas de doença renal crônica.

Mesmo em doenças que começam predominantemente nos glomérulos, a extensão da fibrose intersticial e da atrofia tubular pode fornecer informações importantes sobre a cronicidade e o prognóstico da lesão renal.

Como o padrão tubulointersticial pode diferir do glomerular

A distinção nem sempre é absoluta, mas alguns achados ajudam o nefrologista a compreender qual compartimento renal parece mais envolvido.

Doenças glomerulares frequentemente chamam atenção por alterações como hematúria glomerular ou proteinúria mais significativa. Nas doenças tubulointersticiais, dependendo da causa, podem ganhar maior relevância alterações eletrolíticas e ácido-base, dificuldade de concentração urinária, alterações no sedimento urinário e comprometimento da função renal sem proteinúria de grande magnitude.

Nenhum desses achados deve ser interpretado isoladamente. O padrão clínico e laboratorial é que orienta a investigação.

Como é feita a avaliação

A avaliação pode envolver:

• creatinina e avaliação da função renal
• exame de urina
• quantificação de proteína na urina quando pertinente
• eletrólitos
• avaliação do equilíbrio ácido-base
• revisão detalhada de medicamentos e exposições
• ultrassonografia renal
• biópsia renal em casos selecionados

A escolha dos exames depende do padrão clínico, da velocidade de instalação da lesão e das hipóteses consideradas.

Conclusão

As doenças tubulointersticiais mostram que a lesão renal não precisa começar nos glomérulos. Túbulos e interstício participam de funções essenciais, como equilíbrio eletrolítico e ácido-base e concentração da urina.

Quando existe suspeita de comprometimento tubulointersticial, medicamentos, exposições, doenças sistêmicas, alterações metabólicas e evolução dos exames fazem parte do raciocínio. Mais do que um valor isolado de creatinina, é o conjunto desses achados que ajuda a identificar o padrão de lesão renal.

FAQ – Perguntas Frequentes

1- Doença tubulointersticial é a mesma coisa que glomerulonefrite?
Não. A glomerulonefrite envolve predominantemente os glomérulos, enquanto as doenças tubulointersticiais comprometem principalmente os túbulos e o interstício renal.

2- Medicamentos podem causar nefrite intersticial?
Sim. Alguns medicamentos estão associados a esse tipo de lesão em determinados pacientes. Entretanto, a relação precisa ser avaliada dentro do contexto clínico e da evolução dos exames.

3- Essa doença pode ser silenciosa?
Pode. Algumas formas são identificadas durante a investigação de alterações laboratoriais, mesmo na ausência de sintomas específicos.

4- Doenças tubulointersticiais podem alterar sódio e potássio?
Dependendo do segmento tubular comprometido e da causa, podem ocorrer alterações eletrolíticas e do equilíbrio ácido-base.

5- A biópsia renal pode ser necessária?
Em casos selecionados, sim, principalmente quando a causa permanece incerta ou quando a definição do padrão de lesão pode modificar a avaliação clínica.

Referências

Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO).
KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease.
Kidney International. 2024.

Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO).
KDIGO 2024 CKD Guideline – PDF.

https://kdigo.org/wp-content/uploads/2024/03/KDIGO-2024-CKD-Guideline.pdf

Conselho Federal de Medicina (CFM).
Resolução CFM nº 2.336/2023 – Publicidade e propaganda médicas.

https://sistemas.cfm.org.br/normas/visualizar/resolucoes/BR/2023/2336

Dr. Fabiano Bichuette Custodio
CRM-MG 46712 | RQE 31363