Onconefrologia: quando o tratamento do câncer exige atenção aos rins

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Onconefrologia: quando o tratamento do câncer exige atenção aos rins

A onconefrologia é uma área de interface entre a oncologia e a nefrologia. Ela surgiu da necessidade de compreender melhor como o câncer, seus tratamentos e as condições associadas podem impactar a função renal.

Pacientes oncológicos podem apresentar maior risco de injúria renal aguda, doença renal crônica, distúrbios eletrolíticos, proteinúria e alterações metabólicas. Esse risco pode estar relacionado tanto à própria doença quanto aos medicamentos utilizados no tratamento, alterações no estado de hidratação, infecções, obstruções urinárias, comorbidades prévias e, em determinados contextos, ao uso de contraste iodado.

O KDIGO, em conferências específicas sobre onconefrologia, reconhece que pacientes com câncer podem apresentar formas variadas de lesão renal, incluindo injúria tubular aguda, nefrite tubulointersticial, microangiopatia trombótica, tubulopatias, podocitopatias e nefropatias por cristais.

Por que o paciente oncológico pode ter risco renal aumentado

O risco renal em pacientes com câncer é multifatorial.

Entre os fatores envolvidos estão:

• idade avançada
• doença renal prévia
• diabetes e hipertensão
• desidratação por vômitos ou diarreia
• exposição a contraste iodado em contextos de maior risco
• medicamentos potencialmente nefrotóxicos
• obstrução do trato urinário
• infecções
• toxicidade relacionada à quimioterapia, imunoterapia ou terapias-alvo

Esses fatores não têm o mesmo peso em todos os pacientes. A função renal prévia, o tipo de câncer, o tratamento proposto, as comorbidades e a evolução dos exames ajudam a definir o risco individual e tornam a avaliação renal parte importante do cuidado global do paciente oncológico.

Tratamentos oncológicos e efeitos renais

Diferentes classes de tratamento contra o câncer podem estar associadas a alterações renais.

Entre os possíveis padrões descritos na literatura estão:

• injúria renal aguda
• proteinúria
• hipertensão arterial
• distúrbios de magnésio, potássio e sódio
• nefrite intersticial
• microangiopatia trombótica
• alterações tubulares

O tipo de lesão depende do tratamento utilizado e do contexto clínico. Por isso, uma alteração da função renal durante o tratamento oncológico não deve ser atribuída automaticamente ao medicamento. Desidratação, infecções, obstrução urinária, progressão da própria doença e outras condições também podem participar do quadro.

Um consenso da Acute Disease Quality Initiative reforça a importância de reconhecer, prevenir e monitorar a nefrotoxicidade associada às terapias anticâncer, incluindo tratamentos modernos e imunoterápicos.

A importância de avaliar corretamente a função renal

A avaliação da função renal é essencial em muitos pacientes oncológicos, pois pode influenciar a elegibilidade para determinados tratamentos, o ajuste de doses e a avaliação de risco.

Em alguns casos, a creatinina isolada pode não representar adequadamente a função renal, especialmente em pacientes com perda importante de massa muscular, caquexia ou alterações nutricionais. Além disso, as equações utilizadas para estimar a taxa de filtração glomerular também possuem limitações e precisam ser interpretadas dentro do contexto clínico.

Por isso, quando a função renal pode modificar uma decisão terapêutica importante, o nefrologista considera não apenas um valor isolado de creatinina, mas também a composição corporal, a evolução dos exames, as comorbidades e as características do tratamento proposto.

Câncer, rim e cuidado multidisciplinar

A onconefrologia reforça a necessidade de integração entre oncologia, hematologia, nefrologia, farmácia clínica e outras áreas.

Essa atuação conjunta pode ajudar na compreensão de:

• risco renal antes do tratamento
• alterações laboratoriais durante a terapia
• necessidade de ajuste de medicamentos
• investigação de proteinúria ou queda da função renal
• diferenciação entre progressão da doença, toxicidade e comorbidades

O objetivo é interpretar o quadro renal dentro do contexto oncológico completo, evitando atribuir uma alteração laboratorial isoladamente ao câncer ou ao tratamento.

Conclusão

A onconefrologia representa uma área cada vez mais relevante diante dos avanços no tratamento do câncer e do aumento da sobrevida dos pacientes oncológicos. A função renal pode ser impactada por múltiplos fatores, incluindo a própria doença, terapias anticâncer, alterações de hidratação, infecções, obstruções e comorbidades.

Identificar a origem de uma alteração renal exige considerar o tratamento utilizado, a função renal prévia e a evolução clínica. Essa análise integrada ajuda a diferenciar toxicidade, condições preexistentes e outras possíveis causas de comprometimento renal.

FAQ – Perguntas Frequentes

1- Todo paciente com câncer terá problema renal?
Não. O risco varia conforme o tipo de câncer, tratamento, função renal prévia, comorbidades e outras características individuais.

2- Quimioterapia sempre prejudica os rins?
Não. Algumas terapias apresentam maior potencial nefrotóxico, mas o risco depende do medicamento utilizado, da dose, da função renal prévia e do contexto clínico.

3- Por que a função renal é importante no tratamento oncológico?
Porque pode influenciar a escolha de medicamentos, ajustes de dose, avaliação de toxicidade e segurança do tratamento.

4- A creatinina normal significa que a função renal está normal no paciente com câncer?
Nem sempre. Alterações importantes de massa muscular e do estado nutricional podem interferir na interpretação da creatinina. Por isso, o resultado precisa ser analisado dentro do contexto clínico.

5- Onconefrologia é uma especialidade separada?
É uma área de interface entre nefrologia e oncologia dedicada às questões renais relacionadas ao câncer e ao seu tratamento.

Referências

Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO).
Onco-nephrology: understanding kidney impairment and solid-organ malignancies, and managing kidney cancer.
Kidney International. 2020.

https://kdigo.org/wp-content/uploads/2018/02/KDIGO-Onconeph-Pt-1-Kidney-Impairment-and-Solid-Organ-Cancer.pdf

Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO).
Onco-nephrology: kidney disease in hematological malignancies and the burden of cancer after kidney transplantation.
Kidney International. 2020.

https://kdigo.org/wp-content/uploads/2018/02/KDIGO-Onconeph-Pt-2-Hemat-cancer-and-malignancies-after-txp.pdf

Acute Disease Quality Initiative Workgroup.

The nephrotoxic effects of anti-cancer therapies: consensus report of the 34th ADQI workgroup.

Nature Reviews Nephrology. 2026;22:283–300.

Conselho Federal de Medicina (CFM).
Resolução CFM nº 2.336/2023 – Publicidade e propaganda médicas.

https://sistemas.cfm.org.br/normas/visualizar/resolucoes/BR/2023/2336

Dr. Fabiano Bichuette Custodio
CRM-MG 46712 | RQE 31363