A gestação provoca mudanças importantes no funcionamento do organismo, incluindo adaptações cardiovasculares, hormonais e renais. Durante a gravidez, os rins passam por aumento do fluxo sanguíneo renal e da filtração glomerular, o que faz parte da adaptação fisiológica desse período.
No entanto, em mulheres com doença renal prévia, hipertensão, diabetes, histórico de pré-eclâmpsia ou alterações urinárias, a gestação exige avaliação mais cuidadosa. O risco não é igual para todas as pacientes e depende, entre outros fatores, da doença de base, da função renal, da pressão arterial e da presença de proteinúria.
O KDIGO, em conferência sobre saúde da mulher e rins, destacou questões específicas relacionadas à doença renal crônica, gestação, distúrbios hipertensivos, pré-eclâmpsia e saúde reprodutiva.
Como a gestação modifica os rins
Durante a gravidez, ocorre aumento fisiológico do fluxo sanguíneo renal e da filtração glomerular.
Como consequência, os níveis de creatinina sérica tendem a ser mais baixos do que fora da gestação. Por isso, um valor que poderia ser considerado dentro da faixa habitual em uma mulher não gestante pode ter significado diferente durante a gravidez.
Outro ponto importante é que as equações utilizadas habitualmente para estimar a taxa de filtração glomerular fora da gestação não apresentam a mesma validade durante a gravidez. Por isso, a avaliação da função renal nesse período deve considerar especialmente a creatinina sérica, sua evolução e o contexto clínico da paciente, em vez de interpretar isoladamente a eTFG apresentada pelo laboratório.
Doença renal prévia e gravidez
Mulheres com doença renal crônica podem apresentar maior risco de determinadas complicações durante a gestação. A magnitude desse risco varia conforme a doença de base e o grau de comprometimento renal.
Entre os pontos que podem ser avaliados estão:
• função renal, considerando as particularidades da creatinina durante a gestação
• proteinúria
• pressão arterial
• tipo e gravidade da doença renal de base
• histórico obstétrico
• doenças autoimunes quando presentes
• medicamentos em uso
• riscos maternos e fetais
A presença de doença renal crônica não significa que todas as gestações terão complicações. O risco precisa ser individualizado de acordo com as características clínicas da paciente.
Pré-eclâmpsia e rins
A pré-eclâmpsia é uma condição hipertensiva específica da gestação que pode envolver alterações endoteliais e comprometimento de diferentes órgãos, incluindo os rins. Proteinúria pode estar presente, mas não é o único elemento considerado na avaliação da doença.
A diferenciação pode se tornar especialmente desafiadora em mulheres que já apresentavam hipertensão ou proteinúria antes da gestação. Nesses casos, uma alteração isolada pode não ser suficiente para distinguir a evolução da doença renal de base de uma pré-eclâmpsia sobreposta.
Por isso, o momento de aparecimento das alterações, a evolução da pressão arterial, os exames anteriores e outros sinais maternos e fetais precisam ser analisados em conjunto.
Proteinúria na gestação
A presença de proteína na urina durante a gravidez precisa ser interpretada dentro do contexto clínico e também em relação ao momento em que foi identificada.
Ela pode estar associada a:
• pré-eclâmpsia
• doença renal prévia
• glomerulopatias
• outras condições clínicas
Quando a proteinúria já estava presente antes da gestação ou é identificada precocemente, a possibilidade de doença renal preexistente ganha relevância. Quando aparece posteriormente em associação com hipertensão e outros achados, o raciocínio clínico é diferente.
Por isso, exames prévios à gestação, quando disponíveis, podem ser particularmente úteis.
Medicamentos e planejamento
Alguns medicamentos utilizados no tratamento de doenças renais ou cardiovasculares não são adequados durante a gestação.
Por esse motivo, mulheres com doença renal conhecida podem se beneficiar de planejamento pré-concepcional, quando possível, para avaliar função renal, pressão arterial, proteinúria, atividade da doença de base e segurança dos medicamentos utilizados.
Isso não significa suspender ou modificar tratamentos por conta própria. A revisão medicamentosa deve fazer parte da avaliação médica, considerando tanto a condição materna quanto o planejamento gestacional.
Pós-parto e acompanhamento renal
Alterações renais ou hipertensivas identificadas durante a gestação também podem ter importância depois do parto.
Mulheres que apresentaram pré-eclâmpsia, hipertensão ou alterações da função renal e da proteinúria podem precisar de reavaliação posterior para verificar se essas alterações regrediram ou permanecem presentes.
A persistência de hipertensão, proteinúria ou alteração da função renal após o período gestacional pode indicar necessidade de investigação adicional.
Conclusão
A relação entre gestação e saúde renal exige uma interpretação específica porque a própria gravidez modifica a fisiologia dos rins e os valores esperados em alguns exames.
Em mulheres com doença renal prévia, hipertensão ou proteinúria, a avaliação precisa considerar o estado renal antes da gestação, a evolução dos exames e as mudanças ocorridas durante a gravidez. Essa análise também é importante diante da possibilidade de pré-eclâmpsia, especialmente quando já existiam alterações renais anteriormente.
Por isso, creatinina, proteinúria e pressão arterial não devem ser interpretadas isoladamente durante a gestação.
FAQ – Perguntas Frequentes
1- A gravidez altera a função dos rins?
Sim. Durante a gestação ocorre aumento fisiológico da filtração glomerular, e a creatinina sérica tende a ficar mais baixa.
2- A taxa de filtração glomerular do laboratório pode ser interpretada normalmente durante a gravidez?
Não da mesma forma que fora da gestação. As equações habitualmente utilizadas para estimar a filtração glomerular não são adequadamente validadas para a gravidez. A função renal precisa ser avaliada considerando a creatinina e o contexto gestacional.
3- Quem tem doença renal pode engravidar?
A possibilidade e os riscos dependem do tipo e da gravidade da doença renal, função renal, pressão arterial, proteinúria, medicamentos utilizados e outros fatores individuais. O planejamento pré-concepcional pode ser importante nesses casos.
4- Pré-eclâmpsia pode afetar os rins?
Sim. A pré-eclâmpsia pode estar associada a proteinúria e comprometimento renal, além de alterações em outros órgãos.
5- Proteinúria na gestação sempre significa pré-eclâmpsia?
Não. A proteinúria pode estar relacionada à pré-eclâmpsia, mas também pode existir antes da gestação em mulheres com doença renal. O momento de aparecimento e os demais achados clínicos ajudam na interpretação.
Referências
Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO).
Women and kidney health: conclusions from a KDIGO Controversies Conference.
Kidney International. 2025.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40439632
Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO).
KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Management of Chronic Kidney Disease.
Conselho Federal de Medicina (CFM).
Resolução CFM nº 2.336/2023 – Publicidade e propaganda médicas.
https://sistemas.cfm.org.br/normas/visualizar/resolucoes/BR/2023/2336
Dr. Fabiano Bichuette Custodio
CRM-MG 46712 | RQE 31363


